domingo, 7 de setembro de 2008

MONÓLOGO


Falta um minuto pra cinco horas da manhã. Neste exato momento, estou pensando no meu perfil do orkut. Sim! É isso mesmo. Estou pensado no meu perfil do orkut. Cansei de postar letra de música. Cansei de citar os meus melhores filósofos, e isso me deixa na obrigação de escrever algo.

Nasci num catorze de março. Nasci ao meio dia de uma quarta-feira apaticamente normal. Até agora estou vivo, mas parte de mim, no dia dez de março de mil novecentos e noventa e quatro (uma quinta-feira ensolarada), me deixou chorando na janela. Foi o ano do tetra campeonato da Seleção. Foi o ano em que vi minha mãe pela última vez.

Sou um cara apagadamente normal. A loucura estaria eu difamando, caso resolvesse chamar-me de louco. Sou apaticamente normal. Pra falar a verdade, normal demais. Faço tudo o que os outros fazem ou desejam fazer. Escondo o sorriso sempre que algo vai mal. Pra comemorar as tolices que eu faço, bebo vinho e fumo cigarros. Pra me fortalecer, leio os salmos de Davi e durmo.

Escuto as canções de Nando Reis pra pensar numa menina que conheci na praia. Há nove anos nossas vidas cruzaram-se. Há nove anos, os meus dias estão diretamente ligados à menina que conheci na praia. Naquele dia, havia uma harmonia perfeita. Era um dia tranqüilo. O sol brilhava. Ela estava com um lindo biquíni vermelho. E a parte de mim que estava morta voltou e enxugou as lágrimas que antes escorriam pelo meu rosto. Nossas vidas têm a discrepância como elo.

Leio Kerouac e Thoreau pra não perder o gosto pela vida e pela liberdade. Sou apaixonado por filmes. Os filmes me fazem esquecer as preocupações. Os filmes são como uma fuga delirante. Quando vejo meus melhores filmes, uma sensação de liberdade invade a minha alma abruptamente; é semelhante ao dia em que eu, numa madrugada friorenta, embarquei para um lugar complexamente inusitado.

Tenho poucos amigos, e sei que há pessoas que não gostam de mim. Conheço muitas pessoas, contudo são apenas conhecidos. Confio nos meus amigos. Alguns dos meus familiares também são dignos de minha confiança, sobretudo meu pai e minha irmã Eveline. Pra ser sincero, tenho uma leve impressão de que os meus familiares acham minhas atitudes infantis demais, mas eu não ligo muito para o que eles acham. Como diz o Nando: “prefiro as pernas que me movimentam”.

O sol já saiu. Passei a noite acordado. São seis e vinte um. Uma garrafa de vinho vazia me faz companhia. Da minha janela vejo um gato que anda levemente pelo muro de uma velha casa. Pensei muito no meu perfil do orkut, e isso me deixou confuso. Será real? Ou uma mera ficção? Não sei bem. Vou dormir, porque preciso sonhar com a menina que conheci na praia.

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