
Descobri na humildade o prazer de viver. Descobri na vida o prazer da humildade. Leia-se, no entanto, uma humildade que não se confunde com a falta de vontade. Uma humildade mais racional, mais inteligente.
No final de maio deste ano, fui à praia com dois amigos. Era uma quarta-feira. Eu estava com a intenção de sair da situação que estava vivendo. Eu estava sem emprego, e estava decidido a não voltar mais pra casa onde quase morri. contudo, faltava pensamento para definir o que eu queria, e falta coragem para ser o combustível para acelerar aquela combustão invitável. Era isto mesmo que estava faltando: pensamento e coragem.
A praia me ajudou a pensar. Enquanto bebíamos cerveja, pensei muito. Pra ser bem sincero comigo mesmo, naquele dia, os pensamentos aceleraram, e num piscar de olhos, recordei algumas estratégias, e tracei o plano perfeito pra ascender a rebelião que iria modificar o meu destino. Pensei e encontrei o caminho que levaria outras pessoas ao mesmo caminho que eu estava disposto a traçar. Encontrei o caminho. Encontrei a estratégia. Encontrei o pensamento. Faltava, entretanto, uma coisa: a coragem, ou o agir.
Já tinha o fim, isto é, já tinha o caminho para a minha terna felicidade, e, antes que se completassem dez cervejas na mesa, um garoto me chamou a atenção. Não lembro o nome dele, mas lembro do carisma que ele possuía. Lembro de sua gratidão e de sua coragem, que logo entraram em meu coração, tirando o que se encontrava no mundo das idéias, colocando-os no mundo material.
o personagem que me chamou a atençaõ era um garoto que vendia isqueiros. Um garoto que, como diz o Amarante, precisava tirar a sorte para poder tê-la. Não era um menino-de-rua, era um autêntico super-homem nietzschiano que não se contentava com o destino, e tinha vontade de sobra pra mudar o que já parecia traçado. o determinismo não o dominava. Ele não sonhava, ele realizava. Ele não podia ser partidário do idealismo, porque naquela situação o idealismo não iria alimentá-lo. Ele pensava pouco. Ao invés de falar, ele fazia, e, sem dúvida alguma, estava sujeito a errar perigosamente, como, por exemplo, está sentado à mesa com pessoas desconhecidas.
O fato é que a força daquele garotinho me fez mais forte. Saí da praia decidido a enveredar-me por outros caminhos (e realmente enveredei). Saí de uma situação medíocre. Saí de uma cova. Ressuscitei. Emergi. Hoje vivo muito melhor. Sou feliz. Obrigado, garoto vendedor de isqueiros, Deus o recompensará...

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