quinta-feira, 30 de abril de 2009

NAVEGANDO PELO DECADENTISMO

Ontem, às três e quarenta e cinco da tarde, estavamos tomando um saboroso vinho seco, num dos melhores restaurantes da cidade. Agora estamos sentados no chão da praça, enquanto aguardamos o ônibus da meio-noite passar.
Sem um tostão no bolso, cansado, deprimido, sujo.
Aos poucos, aprenderemos a utilizar o manual do Decadentismo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009


(Little Miss Sunshine, 2006)

Lições no Verbo Imperativo

Enrole suas gravas antes de guardá-las. Colecione moedas. Trabalhe o quanto puder. Faça tudo pra fugir deste caos. Não esqueça, pelo menos por enquanto, daquele sol platônico. Você é mais um a sair da caverna.
Fume cigarros. Coma batatas. Beba vinho.
Arrume seu quarto. Lave louça. Faça algo pra escapar da peste enviada por Sísifo.
Escute Something In The Way. Escute quantas vezes puder todas as músicas que fazem o seu coração mais doce. Acredite ainda na pureza do coração do mais pobres. Acredite que sua cidade sairá desta condição desumana. Acredite que o mar deixa as pessoas melhores.
Não ligue para um bate-boca no plenário do supremo tribunal federal. Não entregue sua atenção a eles. São apenas dois vaidosos.
Comova-se com o choro dos infelizes. Invista todas as suas fichas num amor. Aprenda a ter mais paciência. "Você tem que ser Werther, ou nada".
Defenda hoje o que você pode negar amanhã. A mudança de opinião é saudável.

terça-feira, 21 de abril de 2009

CIDADÃO PACATO DIRETAMENTE DE ORAN

Contas a pagar. Caixas fechados. Pouco dinheiro. A peste está em todos os lugares. Pouco a Pouco, o serviço de saúde identifica quem está com o mal.
Pessoas. Problemas. Palavras. Perigos. Pedidos de perdão. Pesadelos. Pensamentos.
Com o passar do tempo, a vida vai ficando mais difícil. A peste faz você procurar Deus somente por interesse. Os homens e suas tolices invocam Deus constantemente. Quem paga a conta?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

GRANDES MONSTROS

Kent Williams


Grandes montros
nunca são educados.
ao contrário,
acusam sem medo.



Pequenos homens
deliram sempre.
entre uma hora e outra
pedem perdão e se acabam.



quando tudo isso acabar
ou quando tudo isso acaba?
nós temos a resposta.



De um lado: carros. casamento. plano de saúde.
concurso. saldo positivo. vitória. sorriso na foto.



Do outro: pés. encontros. cigarros.
aposentadoria. fiado. vento no rosto.
Mar. gargalhadas. indiferença. prazer.
chuva. bicicleta. palavras. música.



"estamos perdidos neste mundo"
alguém duvida?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

quando a questão é o anonimato

Distanciou-se do céu
Deixou as estrelas em paz

Percorreu um longo caminho
Chegou onde ninguém tinha vontade de ir

Sentiu frio, fome e sede, enquanto se desviava dos perigos da estrada

Conheceu lugares que mais lembravam feridas
Enfrentou Ulisses, Hércules e Édipo

Beijou Helena, Antígona e Raquel

Sentiu-se sozinho. jogou. fez frases
Andou sozinho pela cidade

Nunca mais o encontraram

domingo, 5 de abril de 2009

Segunda.Trabalho.Sol.Saudade da sexta.

Foto: Zemakila


Acordaram cedo. O céu ainda aguarda o sol. Às cinco da manhã já se tem os primeiros sinais dos ônibus. Os terminais acordam. As pessoas despertam e são empurradas para o abismo da segunda-feira. As ruas são tomadas por todo tipo de gente e veículos.
O Mercado São Sebastião também acorda. Os primeiros caminhões já chegam carregados de milho verde e feijão maduro. As peixarias, que ficam na perifiria do grande mercado, não tardam em exalar o seu odor. E os primeiros clientes já dão sinal de vida. É a perfeita sincronia do bairro Farias Brito.
Mais tarde, quando o sol ceder o seu lugar a um belo luar, todos retornam ao aconchego dos seus lares. Uma janta os espera. Um sofá também. Na divina comédia humana há tevê ligada, olhos cerrados, corpor exausto e uma vontade enorme de não mais rolar a pedra.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Lembranças de um tempo não tão distante


Lord Hotel - Centro de Fortaleza.
Foto: Francisco Edson

O centro de Fortaleza, até pouco tempo, não tinha lugar em meu coração. Eu não suportava o barulho dos carros, dos ônibus e das chamadas comerciais. Era tudo tão perturbador, que eu fui conhecer realmente o centro quando saí definitivamente do interior.

Estudei nos colégios do centro da cidade. Colégio Sistema, Anglo e outro que não recordo o nome me receberam na adolescência. Colégios caóticos, onde o aprendizado não era levado muito em conta. Esses colégios gostavam de formar atletas. Mas como eu nunca fui atleta e nunca gostei de competir, apesar de gosta muito de futebol , acabei não me identificando muito com nenhum deles.

Eu gostava mesmo era de ficar observando o acordar do centro. Aquelas lojas de produtos eletrônicos da Pedro Pereira abrindo as portas e os vendedores de tapioca empurrando seus carrinho; O pastel com caldo-de-cana da Lanchonete Alvorada (General Sampaio com Pedro Pereira); O chegar e sair dos ônibus vomitadores de multidões; O despertar dos mendigos e o queimar do sol sob as paredes do Lord Hotel.

Aquele movimento todo era melhor que as baboseiras que eu ouvia em sala de aula. O centro tinha mais vida. Quando a aula terminava mais cedo, eu ia direto pra praça José de Alencar vê algum show de humor ou a cantoria dos repentistas.

Tempo bom. Tempo sadio. Tempo que me fez amar o centro. Hoje, quando faço o mesmo percurso que fazia antes (só que agora não mais no papel de menino do interior), vejo muitos personagens daquela época. Porém sem fisionomia de antes, pois o tempo passou e consumiu boa parte da juventude corporal de cada um, sem no entanto tirar a ideia de que os dias irão melhorar.