segunda-feira, 17 de março de 2008

Amor pra recomeçar

I


Ela não tinha novidades. Até aquele momento não havia ainda contemplado os olhos da felicidade. A vida, para ela, deixara de ser uma fantasia, era, agora, uma cruel sincronia de problemas e decepções. Já não fazia diferença entre está em casa ou está na rua. O “tanto faz”, segundo ela, era a resposta mais verdadeira e mais compreensível.


Clarissa, apesar de ter uma opinião mais dura a respeito da vida, não tinha grandes frustrações. Exercia a profissão que sempre sonhou. Tinha uma boa casa. Estava quase conseguindo terminar a faculdade de fotografia - um dos seus grandes sonhos. Há três anos, exerce a psicologia. É uma psicóloga exemplar. Durante este tempo, viu muitos casos interessantes, fez belas amizades e, como era de se esperar, ajudou muita gente a resolver seus problemas. Porém, de uns dias pra cá, não sabe se a psicologia é realmente a sua função, pois que, agora, vê em tal ciência uma abstração sem fim. Ela não entende o motivo dos seus métodos terapêuticos, apesar de muito bons, não serem simplesmente contestados, já que em muitos não surgem efeitos. No entanto, a subjetividade da psicologia aniquila toda a possibilidade de se resolver este dilema. Para a psicologia, dizia ela, tudo é válido. Era como se o velho ditado: “cada caso é um caso”, fosse à justificativa mais conveniente. No mês passado, completou bodas de açúcar, isto é, seis anos de casamento. Ainda lembra do dia da festa, da noite de núpcias e o dia da primeira briga. Logo, conclui: não foram bem seis anos. Mas, por incrível que pareça, fica triste por saber que nem ao menos hesitara no momento do “sim”. Geraldo, seu marido, nunca achou que sua mulher fosse infeliz. Ele sempre acreditou na sua felicidade. Ele nunca percebeu o semblante melancólico da sua esposa. Mas, quando a observava de longe, percebia claramente a existência de um vazio dentro dela, e recorda que, no dia do casamento, ele a encontrara chorando muito, mas logo conclui que as lágrimas eram de felicidade, e resolveu não mais conceder espaço para tal assunto. Naquele dia, Clarissa entendeu o sua choro como uma leve expressão de felicidade, todavia, com o passar do tempo, negava o seu antigo raciocínio e dava espaço para uma interpretação mais sincera, ou seja, a de que ela era realmente infeliz.


II


Ele também não tinha novidades. Sua vida pouco a pouco tornava-se uma mesmice insuportável. Era como se suas escolhas não tivessem mais sentido algum. Sua condição fazia com que ele pensasse num porvir mais agradável, mas ele sabia que não havia nele aquilo que Nietzsche chamou de vontade de potência. Assim, a vida e as relações que adivinham dela pairavam num abismo mortal chamado niilismo. Este estado neutro, que Nietzsche afirmava ser o ponto entre a ascensão e o declínio, é, não obstante, agora a sua principal característica.


Dois institutos tidos como básicos, para Fabiano, estavam em declínio: sua profissão e o seu desejo pela vida. Era como se ele se deixasse esmorecer por qualquer injustiça, seja ela a mais simples. Preenchia todos os requisitos de um niilista: não possuía mais nenhum objetivo, a não ser, é claro, conseguir dormir; também não fazia questão de ter companhias, ainda que, em suma, a companhia dos amigos lhe agradasse. Ele não possuía mais aquele vigor de ver a vida com um pouco de esperança, só uma vontade não de viver.


Desde que saiu da faculdade de Direito, tem pensado em abandonar aquilo que o destino lhe reservara, mas como não soube com precisão identificar o que exatamente o destino havia lhe reservado, ficou então a mercê das previsões do mercado de trabalho e acabou se transformando num advogado incrivelmente burocrata e parcialmente feliz, deixando assim que os desejos consumissem sua alma, semelhantemente ao fogo que consome a palha seca.

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